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Alto Paraíso, 1/13/2003
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[07/07/02]

ENTREVISTA - Espiritualidade e consciência ambiental

Perspectivas de preservação ambiental e sustentabilidade para Alto Paraíso e Chapada dos Veadeiros, do ponto de vista do presidente da Oca-Brasil, Paulo Maluhy, em entrevista na

Desenvolver a espiritualidade é manter uma relação harmoniosa com a natureza. Com essa convicção, o empresário Paulo Maluhy, um dos criadores e presidente da Oficina de Ciências e Artes (OCA-Brasil a/c), em Alto Paraíso, espera que a cidade sirva como exemplo de respeito ao meio ambiente, não só para o nordeste goiano, mas todo o planeta. Há sete anos dividindo suas atividades entre a capital paulista, onde é um dos sócios da rede de restaurantes América e da famosa Pizzaria Cristal, e a Chapada dos Veadeiros, Maluhy comenta o marketing místico de Alto Paraíso e uma exploração desenfreada do ecoturimo na região. No feriado de Corpus Christi, ele recebeu a equipe do Jornal da Biosfera (o editor Enzo Corazolla e os colaboradores Beth Almeida e Sérgio Amaral) para conversar sobre seus planos para o futuro da OCA-Brasil e sobre como Alto Paraíso pode se projetar no cenário brasileiro e internacional.
Enzo - Como você vê Alto Paraíso, hoje?
Paulo - Alto Paraíso é o chão, é a terra, é a água, é esta vasta área, com condições de vida excepcionais e uma densidade populacional muito pequena, uma das menores do planeta. O que eu vejo aqui, basicamente, é a preservação ambiental e ecologia humana, que deve servir de exemplo para o nordeste goiano inteiro. Acho que Alto Paraíso - sendo o ponto mais alto do Planalto Central e tendo as mais altas cabeceiras, sendo divisor de águas - é o símbolo, um ponto importantíssimo para a visão global e mundial de preservação do meio ambiente e harmonização do homem com a natureza.
Beth - O misticismo de Alto Paraíso estaria transformando este lugar numa espécie de Disneylândia das seitas?
Paulo - Eu não diria isso, porque existem pessoas seríssimas que vivem aqui; e garanto que as mais sérias são as que a gente nem ouve falar, são pessoas que realmente estão no caminho. Acho que o misticismo aqui está na natureza, em entender o que tem aqui, virgem ainda. Esse é o verdadeiro misticismo, principalmente como formador de opinião para todo o nordeste goiano e para o Brasil também.
Beth - Por que este papel caberia a Alto Paraíso?
Paulo - Porque Cerrado não é só a Chapada, é Brasília, é Tocantins e outros Estados. Então, Alto Paraíso pode e vai acabar se consolidando como um núcleo ambientalista mesmo. Sem ambientalismo bobo, de pseudo, de bandeirinha, mas uma coisa real. A espiritualidade está em ser harmonioso com o meio ambiente. Você é uma entidade material que está aqui, como um pássaro, uma aranha, você tem que se harmonizar com isso para desenvolver, na sua totalidade, a espiritualidade.
Enzo - A história da OCA tem a ver com esta idéia?
Paulo - A história da OCA vem desse pensamento. Quando vim para cá, achei que poderia aplicar aqui o que aprendi em minha busca espiri- tual em vários países e principalmente na Índia, trazer aquela visão filosófica (mas aplicada dentro do local, tempo e circuns- tância, que é a base deste pensamento). Mas percebi que isso seria o fim, porque nós estamos bem num momento em que as religiões estão prestes a se transformar começando pelas grandes, até as pequenas. A conclusão a que cheguei é que a maneira de transmitir a espiritualidade que você tem é com o seu comportamento no meio ambiente e a arte, que é a expressão direta da alma. Ciência para o ambiente e arte para a alma.
Beth - Mas a OCA, institucionalmente, não tem uma linha religiosa?
Paulo - Não. Ela é aberta. Inclusive, no estatuto ela é uma Ong sem fins lucrativos, políticos ou religiosos. É uma Ong ambientalista, direcionada também para a ecologia humana.
Enzo - Como funciona a OCA com as pessoas que fazem parte do projeto? Como essas pessoas entram e saem? Como participam, não só aqui, mas nos outros locais?
Paulo - A OCA pode receber muitas pessoas, que podem atuar em suas atividades. Começamos pequenininhos, uma coisa bem oba-oba, bem festiva, uma brincadeira, que eu percebi que ia dar certo. Então, construímos as oficinas, tudo isso. Passamos por transformações, pessoas entraram e saíram e, no momento, a gente está aberto. Mas tem restrições, por causa da sustentabilidade, também. Chegou a ter 70 pessoas aqui.
Beth - É muito co- mum em grandes grupos, como esse, de quase 100 pessoas, alguns não entenderem qual é o objetivo final daquele trabalho. Quando você poderia dizer que a OCA atingiu seu objetivo final?
Paulo - Acho que a OCA está atingindo seu objetivo a cada instante. Cada momento é o momento de atingir seu objetivo. Agora, estamos atingindo um: estamos falando dela. Futuro objetivo é a preservação ambiental e a ecologia humana. Através dessas duas características, dessas duas visões de continuidade, adaptar as pessoas, seus talentos, dentro desses conceitos. O artista fazendo arte, o agricultor fazendo agricultura....
Beth - E desenvolvendo isso não através de posições filosóficas, e sim através de um trabalho prático, no dia-a-dia, mostrando com experiências que é possível uma nova relação sustentável com a natureza. Seria isso?
Paulo - As palavras seriam exatamente estas. Mas o importante é frisar que as pessoas que aparecem é que fazem a OCA. Ela é o conjunto. Bem, eu estou aqui, "mantrando" para virem as coisas. O que eu quero que venha? Quero que venham pessoas ligadas à natureza, com evolução espiritual, artistas, pessoas inteligentes, pessoas humildes, que, aliás, são as melhores, que agregam o grupo, desde o kalunga até o goiano mesmo, não identificado, o indígena. Então, é um mix, uma coisa nova, uma coisa que nem eu sei dizer muito.
Enzo - E você acredita que Alto Paraíso tende a ocupar esse espaço de opinião, até em termos planetários?
Paulo - Com certeza. Eu acho que é o lugar certo e é a hora certa de estar aqui. Todas as condições de vida, os cinco elementos da natureza em profusão, pouca densidade demográfica e um mundo em que se fala da escassez da água. Porque o ponto chave da Chapada é a água. Então, se não ocuparmos isso aqui conscientemente, vamos ser ocupados, conscientemente, por outros. Com toda razão. Eu falei uma vez para a cônsul dos Estados Unidos em São Paulo: "olha, não duvido nada que, se não cuidarmos direitinho do meio ambiente aqui no Brasil, vocês vão criar um Vietnã, com toda razão". Toda a razão deles, né... Não com todo o direito. Mas eles fazem um Vietnã aqui. Em nome da humanidade!! É na necessidade que as coisas acontecem.
Sérgio - E qual seria a saída econômica e social, o ecoturismo?
Paulo - Alto Paraíso tem que ser um formador de opinião, de consciência ambiental, de cons- ciência espiritual da relação humana com a natureza, do trato com as pessoas. Está errada a concepção de sustentabi-lidade de Alto Paraíso passar simplesmente pela manutenção desta área como um centro de visitação. Em nome do ecoturismo vamos fazer uma estrada asfaltada, em faixas enormes de trânsito de animais. Uma cidade parque como Alto Paraíso - e São Jorge, que é uma localidade boca de parque, uma bilheteria - deveria ser uma cidade administrativa de todo este contencioso em volta. Seria o caso de todos esses municípios - Cavalcante, Teresina, Colinas e outros - terem, em seus planos diretores, mecanismos para evitar um crescimento absurdo, já que ainda é muito simples organizar uma área como esta aqui, se houver vontade política.
Beth - Então, um plano de marketing para Alto Paraíso seria a divulgação dessas experiências de economia sustentável e respeito mútuo na comunidade, um huma-nismo ecológico?
Paulo - Isso. Um humanismo ecológico, bonita palavra.
Enzo - E o que já está pronto em Alto Paraíso, na sua opinião?
Paulo - Eu acho que a juventude é que está pronta. Ela só não tem onde se aglutinar. A OCA aglutina. Fizemos uma festa ontem (no feriado de Corpus Cristi) e tinha 500 ou 600 pessoas aí. Música boa, totalmente eclética, com gente de todas as idades. Que nome vamos dar a essa energia que está catali- sando aqui? É persistência, é fé no ideal terceiro milenista, de harmonia. De humanismo ecológico, como disse Beth. Acho que as pessoas estão esperando alguém mais velho, com um pouco de direcionamento e na frente, mostrando o caminho.Tem que haver a fé em resultados práticos. Isso aqui (a área onde hoje funciona as oficinas e área social da OCA), por exemplo, estava se transformando no aterro sanitário da cidade. Tiramos daqui mais de dez caminhões de lixo. E conseguimos montar tudo isso.
Enzo - E qual foi a influência do Paulo Maluhy empresário até aqui?
Paulo - O Paulo empresário é que dá uma base para que tudo isso aconteça. Porque o sucesso empresarial em São Paulo realmente dá uma credibilidade para o que se faz aqui.
Enzo - E o que está faltando?
Paulo - Falta o acabamento. Sendo objetivo, o que eu quero é arrumar a RPPN Cara Preta, deixar pronta para receber pessoas - não ecoturistas, mas visitantes ambientais, estudantes, pessoas a fim de ver mesmo uma coisa delicada. O São Miguel (propriedade próxima do povoado de São Jorge) é outra base de sustentação que precisa ser terminada. Temos que fazer mais duas ou três oficinas, para receber mais pessoas. E aqui, na área social da OCA, fazer mais algumas construções para receber visitas.
Enzo - Quem seria provedor dos recursos, Fundo Nacional de Meio Ambiente ou a Unesco, que deu para a Chapada dos Veadeiros o título de Reserva de Biosfera do Cerrado?
Paulo - A Unesco não é provedora de recursos, é uma credenciadora, aval, que facilita a consecução de projetos para receberem recursos de outras fontes, como o BID (Banco Interameri- cano de Desenvolvimento) e outros. Estou conse- guindo agora financiamento junto ao Fundo Nacional de Meio Ambi- ente para fazer o manejo da Cara Preta. Estamos tentando, dentro da Reserva da Biosfera, captar recursos para fazer coisas como uma mídia direcionada dentro da Reserva. Não criar um veículo, mas estimular o que já tem aqui, um jornal como este.


site:
www.ocabrasil.org.br

e-mail:
oca@ocabrasil.org.br


Paulo Maluhy, no viveiro da OCA- Brasil, em Alto Paraíso: os rumos da instituição e da sustentabilidade

 

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